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SOBRE COMUNIDADES, TECNOLOGIAS E

CIDADES MAIS QUE HUMANAS

um relato do Digital Cities 11

Vivemos no século da urbanização. Nesse século, lidar com os efeitos do crescimento populacional e com sua crescente aglomeração nas cidades é uma questão crítica para a nossa sobrevivência.

Digital Cities 11¹, simpósio integrante do C&T 2019 (Viena, Áustria), reuniu aproximadamente vinte pesquisadores de diferentes áreas para identificar direções futuras para pesquisas relacionadas a design de interação, design participativo e o uso de informática urbana e tecnologias digitais para explorar as relações humanas, não-humanas e mais que humanas nas cidades. Apresento aqui as principais conclusões e questões de pesquisa levantadas a partir deste grupo e abro as portas para mais conversas.

 

Sob o tema “Comunidades e tecnologias para futuros mais que humanos”, o simpósio foi presidido por Marcus Foth, pesquisador da Universidade de Queensland, Austrália, e fundador do Urban Informatics Research Lab e do QUT Design Lab. O simpósio deu continuidade ao debate levantando durante o workshop “Avoiding Ecocidal Smart Cities: Participatory Design for More-than-Human Futures”, ocorrido na Participatory Design Conference 2018, na cidade de Hasselt, Bélgica. Entre seus participantes estavam Martijn de Waal (do The Mobile City e do The Hackable City), Aldo de MoorSophie McDonaldPeter Lyle e Mirko Schaefer, para citar alguns.

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Uma das primeiras preocupações percebidas em meio às discussões sobre como considerar elementos mais do que humanos, como sistemas naturais, na concepção de cidades foi a insuficiência tanto da abordagem de cidade inteligente, ou smart city, quanto das próprias metodologias de design participativo tradicionais. No caso da primeira abordagem, os argumentos são de que os processos de planejamento urbano desenvolvidos sob a bandeira da cidade inteligente frequentemente utilizam a tecnologia como meio para alcançar eficiência e eficácia, muitas vezes ao custo do bem-estar do cidadão. O pensamento crítico a respeito dos resultados da cidade inteligente tem implicações importantes para a área mais ampla do planejamento urbano. Quando surgem os processos de design participativos, o foco do emprego da tecnologia é desviado não apenas para as necessidades do cidadão, como também para o envolvimento dele nos processos de planejamento e decisão. Mas, apesar desse avanço de uma visão puramente técnica para uma outra que engloba também a questão humana, os defensores do design para cidades mais que humanas questionam as noções-padrão de ambas abordagens e sugerem que o discurso empregado por ambas frequentemente negligencia o impacto de suas soluções para a saúde do ambiente natural.

 

A crítica ao favorecimento do conforto e conveniência humanos em detrimento da natureza está sustentada na afirmação de que o bem-estar humano está diretamente ligado ao bem-estar do meio ambiente e de outras espécies e que, portanto, “outras sabedorias” também deveriam ser consideradas. Mas como fazê-lo? Quais as oportunidades e os desafios para projetar mundos mais que humanos? Que abordagens metodológicas existem ou são necessárias? Quais seriam as questões legais e éticas a serem consideradas? Que exemplos temos de projetos que retiram o humano do centro das preocupações e privilegiam outras espécies? Quais as narrativas já encontradas (design especulativo, design fictions e projetos artísticos)? Quais as perspectivas teóricas presentes na literatura (antropoceno, capitaloceno, chthuluceno…)? E, finalmente, como seria uma cidade mais que humana?

 

 

A DINÂMICA

 

As atividades do simpósio foram divididas em duas etapas, chamadas pelos organizadores de diverge e converge (divergir e convergir). Foth trouxe ao grupo uma contextualização do tema e atualizou-nos das discussões mais recentes a esse respeito. Em seguida, cada um dos participantes apresentou seu tema de estudo e a relação com as discussões trabalhadas no simpósio.

 

Uma questão inicialmente levantada foi o custo social e ambiental da produção dos milhões e milhões de componentes eletrônicos, dispositivos digitais e sensores necessários à construção da cidade inteligente, bem como de sua manutenção (agravada pela obsolescência programada). Outra questão manifesta estava relacionada com a necessidade de aproximar ciência e sociedade, de criar pontes entre comunidades e de trabalhar no sentido da sensibilização comunitária não apenas para aproximá-las das questões ambientais, mas também para cocriar formas de projetar para a resiliência e para encontrar caminhos para envolver elementos não-humanos no processo.

 

Minha participação no simpósio esteve relacionada à exploração das possibilidades de uso das mídias locativas nesse contexto — como ferramentas para planejamento ambiental local, como ferramentas para novas formas de consumo, como plataformas para iniciativas de sensoriamento cidadão, e mais um sem fim de possibilidades que gerariam facilmente mais uma centena de parágrafos aqui...

 

Na segunda etapa, converge, os participantes foram divididos em três grupos de trabalho que tinham a missão de identificar as lacunas nos estudos da áreas respondendo duas perguntas: (1) que assuntos o livro perfeito sobre cidades mais que humanas deveria abordar? E (2) quais são as coisas que ainda não sabemos sobre o tema e que deveriam ser exploradas em pesquisas futuras?

 

 

OS RESULTADOS

 

Seria absurdo imaginar que todos os tópicos abordados durante aquele dia poderiam ser expressos em apenas um texto. Além disso, tenho certeza de que, tamanha a carga de informação, não consegui capturar todos os grandes momentos do simpósio e que muito provavelmente no futuro algumas coisas ditas pelos pesquisadores ali presentes (e que passaram despercebidas) vão parecer interessantes. Entretanto, ainda assim, acredito que mesmo estando incompleto, o conjunto de resultados abaixo pode ajudar a guiar pesquisadores que eventualmente tenham interesse pelo tema. 

 

Em resumo, os resultados apresentados pelas equipes trouxeram as seguintes questões:

  • quais seriam as qualidades de uma cidade mais que humana?

  • quem define os objetivos coletivos das cidades mais que humanas? 

  • quais seriam as dinâmicas de poder e contra-poder em uma cidade mais que humana? 

  • quais são os métodos e indicadores que ajudam a articular iniciativas top-down e bottom-up para a construção de cidades mais que humanas? 

  • quais seriam os impactos dessa mudança de paradigmas (do centrado no humano para o mais que humano)?

  • como os dados mudam o nosso entendimento de cidadania e como usá-los para aumentar nosso senso de agência e de unicidade? 

  • como planejar sistemas de co-gestão para esse contexto? 

  • como seria um framework para avaliação da inserção de elementos mais que humanos nos indicadores de qualidade de vida? 

  • quais são as entidades mais que humanas e como elas apoiam umas às outras?

  • como ouvir as vozes não humanas e que “outras sabedorias” devem ser consideradas?

 

Por fim, embora tenhamos tratado de uma infinidade de temas que apenas um simpósio tão multidisciplinar consegue perpassar em tão pouco tempo, tenho a impressão de que duas preocupações estiveram implícitas em todo o conjunto de discussões. A primeira, mesmo que não tenha sido expressa diretamente por todos os participantes, é que os pesquisadores ali presentes entendem o engajamento comunitário como elemento crucial para a construção de futuros mais que humanos e que, portanto, é necessário trabalhar com a lógica das comunidades. A segunda preocupação é de que o uso dos dados e das tecnologias de mídia não deve ficar limitado apenas a criar consciência, mas também deve ser apropriado no sentido de dar direções para a ação individual e coletiva.

 

Sugestões de leitura: 

Limits to growth, de Donella H. Meadows / The spell of the sensuous, de David Abram / Decentering the human in the design of collaborative cities, de Laura Forlano

 

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¹ Simpósio bienal que, desde 1999, reúne alguns dos principais pesquisadores mundiais para discutir as implicações dos avanços das tecnologias de informação e comunicação nos diversos aspectos da vida urbana.